Educação para o trabalho

Por Mozart Neves Ramos, do Instituto Ayrton Senna, 01 jun, 2013

Na última semana, a McKinsey&Company divulgou um novo estudo, intitulado Educação para o trabalho: Desenhando um sistema que funcione, em evento promovido em parceria com a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e o movimento Todos Pela Educação. Os resultados impressionam e revelam o drama do desemprego juvenil e da falta de competências necessárias para que essa juventude possa ocupar posições no mundo do trabalho. 

 

De acordo com o estudo, na Grécia, Espanha e África do Sul, mais da metade dos jovens estão desempregados. O desemprego médio entre os jovens, na Europa, no Oriente Médio e no norte da África, beira a casa dos 25%. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que, em todo o mundo, 75 milhões de jovens estejam desempregados. Esse número praticamente triplica quando se incluem os jovens subempregados. Segundo o relatório, isso não representa apenas um gigantesco pool de talentos não aproveitados – é também uma fonte de inquietação social e desespero individual.

 

Paradoxalmente, há uma profunda escassez de jovens com habilidades necessárias para ocupar as novas demandas do atual mundo do trabalho. A McKinsey&Company estima que em 2020 haverá um déficit mundial de 85 milhões de trabalhadores de alta e média qualificação.

 

A solução para essa crise passa não só pela criação de novos empregos, mas também pelo desenvolvimento de competências para o mundo do trabalho. Fica evidente que as empresas precisam trabalhar em conjunto com as instituições de ensino, de forma que os alunos possam assim adquirir as competências demandadas pelo mundo do trabalho. Mas ainda existe pouca clareza sobre que práticas e intervenções funcionam para que a formação dos jovens inclua esses atributos. Daí a pergunta-chave: como um país pode ser bem-sucedido ao conduzir com êxito seus jovens da Educação para o trabalho? E foi a isso que o relatório da McKinsey procurou responder estudando o tema em nove países: Brasil, Alemanha, Índia, México, Marrocos, Arábia Saudita, Turquia, Reino Unido e Estados Unidos.

 

Notadamente, como ponto de partida, era preciso reconhecer a dupla face da crise: a escassez de postos de trabalho e a falta de competências para o mundo do trabalho na formação juvenil. Outro fato que chamou a atenção dos pesquisadores foi a ausência de dados concretos que permitissem, por exemplo, compreender quais as competências exigidas para o emprego, ou quais as práticas mais promissoras para melhor qualificar os jovens. Apesar da complexidade do tema, a pesquisa chegou a alguns pontos comuns entre os países pesquisados. 

 

Pelos resultados, ficou evidente que empresários, professores e alunos vivem universos paralelos e têm entendimentos absolutamente diferentes de uma mesma situação. Por exemplo, 72% das instituições formadoras acreditam que os formandos/recém-contratados estão adequadamente preparados para exercer suas atividades. Do ponto de vista dos empregadores, por outro lado, esse percentual cai para 42%.

 

Essa mesma pesquisa mostra que 39% dos empregadores dizem que a escassez de competências é a principal razão de as vagas para iniciantes não serem preenchidas. No Brasil, esse percentual sobre para 48%.

 

Ainda de acordo com a pesquisa, um quarto dos jovens não passa por uma transição fácil para o trabalho; seus primeiros empregos não estão relacionados à sua área de estudos, o que os faz querer mudar rapidamente de posição. Nos mercados emergentes, esse percentual cresce para quase 40%. Entre os jovens pesquisados, 43% responderam que o fator financeiro é o grande entrave para cursar uma faculdade. Isso demonstra o acerto de nosso país em adotar programas como o Prouni e Fies para financiar vagas para estudantes em universidades particulares.

 

Criar um sistema de Educação para o trabalho requer novos incentivos e estruturas, conclui o relatório da Mckinsey. Os países precisam de sistemas integradores responsáveis por uma visão abrangente da Educação com vistas ao trabalho, envolvendo as instituições formadoras e os empregadores para desenvolver soluções relativas às competências, levantando dados e disseminando exemplos positivos. Acredito que, a criação de câmaras interinstitucionais setoriais por áreas tecnológicas, por exemplo, poderia ser uma saída. O certo é que esse relatório deixa um recado importante para as instituições formadoras, os governos e as empresas: que sem integração e diálogo não será possível vencer a crise da empregabilidade juvenil, que terá enorme impacto no futuro sustentável das nações.

 

Mozart Neves Ramos é professor da UFPE, membro do Conselho Nacional de Educação e do Conselho de Fundadores do Todos Pela Educação.

 

* Artigo publicado no Correio Braziliense em 6/6/2013